A lei da polícia
Tem certa malícia
Bastante brejeira;
(Do samba “Pelo Telefone”, de Donga)
Já há algum tempo que está presente tanto na mídia quanto na intelligentzia nacional um conceito – que eu identifico mais como impostura intelectual – de que o funk dos bailes cariocas é uma “manifestação popular de revolta que vem sendo objeto de repressão por parte das elites racistas e excludentes”.
À guisa desta premissa, quaisquer medidas de ordem urbana ou mesmo preventivas na área de segurança públicas são imediatamente atacadas nos cadernos de cultura, seções de cartas e até colunas de articulistas dos principais jornais. Tornaram-se os bailes funk um patrimônio cultural carioca de tal importância que é a todo instante comparado ao samba – que no início do século passado sofreu “igual perseguição por parte das elites”.Comparação, aliás, das mais estapafúrdias.
Comportam-se, todos os “defensores do povo”, como se a PM fosse uma Gestapo e quisesse simplesmente, seguindo sua “tradição militar da ditadura”, acabar com o funk. Tal motivação teria como força motriz apenas o “elitismo” e o fato de ser a PM uma “força a favor das elites”.
Da minha parte, me surpreendo como uma impostura intelectual deste tipo consegue atravessar os anos, até décadas.
Aqui, um funk dos proibidos: expressão cultural?
O samba perseguido no início do século passado: sobreviveu até hoje
Em primeiro lugar, causa-me espanto constatar que alguém pode imaginar que a PM é movida por impulsos e que suas ações profiláticas contra o crime possam ser apenas baseadas em conceitos, não em estatísticas, observações e relatórios. Imaginar que, por exemplo, a PM proíba o baile funk apenas porque algumas letras efetivamente fazem apologia de facções criminosas seria o mesmo que incentivar os EUA a implodir a Jamaica com a promessa de que desta forma a maconha no mundo estaria extinta.
Se a PM do Rio quer, sim, proibir o funk em ALGUMAS comunidades, é porque se verificou que nelas havia grupos de jovens ARMADOS formando BONDES a partir dos bailes. Ou livre-comércio de drogas e armas durante os eventos, sem contar as clássicas batalhas entre gangues de funkeiros. Tal e qual as guerras de torcidas no Rio, muitas vezes acabam em tiros.
E podemos ir além: muitas vezes atiradores e baleados pertencem aos três grupos: funk, torcida organizada e tráfico.
Mas vamos nos deter no funk, dita “expressão cultural”. Tal e qual a igreja evangélica pentecostal, o funk hoje exerce o papel de anestesista social na maior parte da classe pobre. Não fossem os crentes – que a intelligentzia tanto detesta – e os bailes funks, sim, estaríamos em situação muito pior. No entanto, se em um culto de igreja evangélica for constatada a presença de fuzis AR-15 em poder dos bispos, acredito que a PM vai imediatamente reagir. Vai proibir pelo menos aquele culto, pelo menos por algum tempo.
Será que haveria gritaria? Ora, a liberdade de culto é menor que a liberdade de cultura? Haverá gritaria, sim, dos bispos e tudo o mais. No entanto, não faltarão intelectuais a escreverem para seções de cartas dos jornais aplaudindo a ação da PM contra aquela “religião que entorpece o povo de ópio” - como se o funk vindo de Miami e com letras eróticas e bélicas fosse “libertador” ou, no sentido de Adorno, “esclarecimento”.
Mas devo parar com a crítica ácida antes que o leitor pense que estou escrevendo “contra o funk”. Longe disto. Não é porque não vejo valor artístico na música ou literário nas letras que vou ser contra o gênero – senão, teria de ser contra o Big Brother Brasil e pelo menos metade da programação das TVs abertas. Não sou contra o funk ou qualquer outro gênero – sou contra a “imunidade” que se pretende dar em nome da dita “liberdade de expressão” (sobre “liberdade de expressão”: você deixaria a Tati Quebra-Barraco se expressar livremente em CD diante do seu filho de cinco anos? Ah bom).
É a mesma imunidade que já deram – de forma irreversível – ao jogo do bicho, que ninguém mexe porque comanda o Carnaval – outra “expressão do povo”. Em nome de dois dias por ano na Sapucaí, contraventores mandam e desmandam nas três instâncias de poder do país. E com o funk é isto: em nome da “expressão popular” e dos “oprimidos”, libera-se geral. A PM se torna então mera vilã, uma corporação com pensamento próprio e que não está a serviço da vontade democrática.
Faltou malícia aos analistas – a malícia que sobrou na “lei da polícia”, como no próprio samba do Donga. Quando direciona o olhar aos bailes funk, a PM está apenas dizendo, “divirtam-se, mas não usem para outro fim a não ser diversão”. A PM, com malícia, quer que os funkeiros do bem e do mal saibam que o funk não pode encobrir outras atividades. Que o funk não pode ser usado para tomar a comunidade na noite do fim de semana e facilitar a venda de drogas.
Só, por favor, senhores, não vamos dar mais esta imunidade. De doenças e de imunidades já estamos todos repletos.
À guisa desta premissa, quaisquer medidas de ordem urbana ou mesmo preventivas na área de segurança públicas são imediatamente atacadas nos cadernos de cultura, seções de cartas e até colunas de articulistas dos principais jornais. Tornaram-se os bailes funk um patrimônio cultural carioca de tal importância que é a todo instante comparado ao samba – que no início do século passado sofreu “igual perseguição por parte das elites”.Comparação, aliás, das mais estapafúrdias.
Comportam-se, todos os “defensores do povo”, como se a PM fosse uma Gestapo e quisesse simplesmente, seguindo sua “tradição militar da ditadura”, acabar com o funk. Tal motivação teria como força motriz apenas o “elitismo” e o fato de ser a PM uma “força a favor das elites”.
Da minha parte, me surpreendo como uma impostura intelectual deste tipo consegue atravessar os anos, até décadas.
Aqui, um funk dos proibidos: expressão cultural?
O samba perseguido no início do século passado: sobreviveu até hoje
Em primeiro lugar, causa-me espanto constatar que alguém pode imaginar que a PM é movida por impulsos e que suas ações profiláticas contra o crime possam ser apenas baseadas em conceitos, não em estatísticas, observações e relatórios. Imaginar que, por exemplo, a PM proíba o baile funk apenas porque algumas letras efetivamente fazem apologia de facções criminosas seria o mesmo que incentivar os EUA a implodir a Jamaica com a promessa de que desta forma a maconha no mundo estaria extinta.
Se a PM do Rio quer, sim, proibir o funk em ALGUMAS comunidades, é porque se verificou que nelas havia grupos de jovens ARMADOS formando BONDES a partir dos bailes. Ou livre-comércio de drogas e armas durante os eventos, sem contar as clássicas batalhas entre gangues de funkeiros. Tal e qual as guerras de torcidas no Rio, muitas vezes acabam em tiros.
E podemos ir além: muitas vezes atiradores e baleados pertencem aos três grupos: funk, torcida organizada e tráfico.
Mas vamos nos deter no funk, dita “expressão cultural”. Tal e qual a igreja evangélica pentecostal, o funk hoje exerce o papel de anestesista social na maior parte da classe pobre. Não fossem os crentes – que a intelligentzia tanto detesta – e os bailes funks, sim, estaríamos em situação muito pior. No entanto, se em um culto de igreja evangélica for constatada a presença de fuzis AR-15 em poder dos bispos, acredito que a PM vai imediatamente reagir. Vai proibir pelo menos aquele culto, pelo menos por algum tempo.
Será que haveria gritaria? Ora, a liberdade de culto é menor que a liberdade de cultura? Haverá gritaria, sim, dos bispos e tudo o mais. No entanto, não faltarão intelectuais a escreverem para seções de cartas dos jornais aplaudindo a ação da PM contra aquela “religião que entorpece o povo de ópio” - como se o funk vindo de Miami e com letras eróticas e bélicas fosse “libertador” ou, no sentido de Adorno, “esclarecimento”.
Mas devo parar com a crítica ácida antes que o leitor pense que estou escrevendo “contra o funk”. Longe disto. Não é porque não vejo valor artístico na música ou literário nas letras que vou ser contra o gênero – senão, teria de ser contra o Big Brother Brasil e pelo menos metade da programação das TVs abertas. Não sou contra o funk ou qualquer outro gênero – sou contra a “imunidade” que se pretende dar em nome da dita “liberdade de expressão” (sobre “liberdade de expressão”: você deixaria a Tati Quebra-Barraco se expressar livremente em CD diante do seu filho de cinco anos? Ah bom).
É a mesma imunidade que já deram – de forma irreversível – ao jogo do bicho, que ninguém mexe porque comanda o Carnaval – outra “expressão do povo”. Em nome de dois dias por ano na Sapucaí, contraventores mandam e desmandam nas três instâncias de poder do país. E com o funk é isto: em nome da “expressão popular” e dos “oprimidos”, libera-se geral. A PM se torna então mera vilã, uma corporação com pensamento próprio e que não está a serviço da vontade democrática.
Faltou malícia aos analistas – a malícia que sobrou na “lei da polícia”, como no próprio samba do Donga. Quando direciona o olhar aos bailes funk, a PM está apenas dizendo, “divirtam-se, mas não usem para outro fim a não ser diversão”. A PM, com malícia, quer que os funkeiros do bem e do mal saibam que o funk não pode encobrir outras atividades. Que o funk não pode ser usado para tomar a comunidade na noite do fim de semana e facilitar a venda de drogas.
Só, por favor, senhores, não vamos dar mais esta imunidade. De doenças e de imunidades já estamos todos repletos.
















