sexta-feira, 24 de julho de 2009

Imposturas contra a lei

A lei da polícia
Tem certa malícia
Bastante brejeira;
(Do samba “Pelo Telefone”, de Donga)





Já há algum tempo que está presente tanto na mídia quanto na intelligentzia nacional um conceito – que eu identifico mais como impostura intelectual – de que o funk dos bailes cariocas é uma “manifestação popular de revolta que vem sendo objeto de repressão por parte das elites racistas e excludentes”.
À guisa desta premissa, quaisquer medidas de ordem urbana ou mesmo preventivas na área de segurança públicas são imediatamente atacadas nos cadernos de cultura, seções de cartas e até colunas de articulistas dos principais jornais. Tornaram-se os bailes funk um patrimônio cultural carioca de tal importância que é a todo instante comparado ao samba – que no início do século passado sofreu “igual perseguição por parte das elites”.Comparação, aliás, das mais estapafúrdias.
Comportam-se, todos os “defensores do povo”, como se a PM fosse uma Gestapo e quisesse simplesmente, seguindo sua “tradição militar da ditadura”, acabar com o funk. Tal motivação teria como força motriz apenas o “elitismo” e o fato de ser a PM uma “força a favor das elites”.
Da minha parte, me surpreendo como uma impostura intelectual deste tipo consegue atravessar os anos, até décadas.



Aqui, um funk dos proibidos: expressão cultural?



O samba perseguido no início do século passado: sobreviveu até hoje





Em primeiro lugar, causa-me espanto constatar que alguém pode imaginar que a PM é movida por impulsos e que suas ações profiláticas contra o crime possam ser apenas baseadas em conceitos, não em estatísticas, observações e relatórios. Imaginar que, por exemplo, a PM proíba o baile funk apenas porque algumas letras efetivamente fazem apologia de facções criminosas seria o mesmo que incentivar os EUA a implodir a Jamaica com a promessa de que desta forma a maconha no mundo estaria extinta.
Se a PM do Rio quer, sim, proibir o funk em ALGUMAS comunidades, é porque se verificou que nelas havia grupos de jovens ARMADOS formando BONDES a partir dos bailes. Ou livre-comércio de drogas e armas durante os eventos, sem contar as clássicas batalhas entre gangues de funkeiros. Tal e qual as guerras de torcidas no Rio, muitas vezes acabam em tiros.
E podemos ir além: muitas vezes atiradores e baleados pertencem aos três grupos: funk, torcida organizada e tráfico.
Mas vamos nos deter no funk, dita “expressão cultural”. Tal e qual a igreja evangélica pentecostal, o funk hoje exerce o papel de anestesista social na maior parte da classe pobre. Não fossem os crentes – que a intelligentzia tanto detesta – e os bailes funks, sim, estaríamos em situação muito pior. No entanto, se em um culto de igreja evangélica for constatada a presença de fuzis AR-15 em poder dos bispos, acredito que a PM vai imediatamente reagir. Vai proibir pelo menos aquele culto, pelo menos por algum tempo.
Será que haveria gritaria? Ora, a liberdade de culto é menor que a liberdade de cultura? Haverá gritaria, sim, dos bispos e tudo o mais. No entanto, não faltarão intelectuais a escreverem para seções de cartas dos jornais aplaudindo a ação da PM contra aquela “religião que entorpece o povo de ópio” - como se o funk vindo de Miami e com letras eróticas e bélicas fosse “libertador” ou, no sentido de Adorno, “esclarecimento”.
Mas devo parar com a crítica ácida antes que o leitor pense que estou escrevendo “contra o funk”. Longe disto. Não é porque não vejo valor artístico na música ou literário nas letras que vou ser contra o gênero – senão, teria de ser contra o Big Brother Brasil e pelo menos metade da programação das TVs abertas. Não sou contra o funk ou qualquer outro gênero – sou contra a “imunidade” que se pretende dar em nome da dita “liberdade de expressão” (sobre “liberdade de expressão”: você deixaria a Tati Quebra-Barraco se expressar livremente em CD diante do seu filho de cinco anos? Ah bom).
É a mesma imunidade que já deram – de forma irreversível – ao jogo do bicho, que ninguém mexe porque comanda o Carnaval – outra “expressão do povo”. Em nome de dois dias por ano na Sapucaí, contraventores mandam e desmandam nas três instâncias de poder do país. E com o funk é isto: em nome da “expressão popular” e dos “oprimidos”, libera-se geral. A PM se torna então mera vilã, uma corporação com pensamento próprio e que não está a serviço da vontade democrática.
Faltou malícia aos analistas – a malícia que sobrou na “lei da polícia”, como no próprio samba do Donga. Quando direciona o olhar aos bailes funk, a PM está apenas dizendo, “divirtam-se, mas não usem para outro fim a não ser diversão”. A PM, com malícia, quer que os funkeiros do bem e do mal saibam que o funk não pode encobrir outras atividades. Que o funk não pode ser usado para tomar a comunidade na noite do fim de semana e facilitar a venda de drogas.
Só, por favor, senhores, não vamos dar mais esta imunidade. De doenças e de imunidades já estamos todos repletos.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ALERJ TERÁ COMISSÃO PARA ESTUDAR NOVO REGULAMENTO DISCIPLINAR DA PM

Em pleno recesso da Assembléia Legislativa, aparece um sinal de mudança. O deputado Flávio Bolsonaro finalmente consegue encaminhar à mesa diretora o pedido para criação de uma comissão para elaborar um novo regulamento disciplinar para a PM do Rio. Já disse, em artigo do ano passado muito oportuno, o coronel Emir Larangeira: "As leis da PM deveriam estar num museu". A declaração, polêmica, despertou rancores e aplausos direcionados ao articulista. Mas ninguém se sentiu imune à frase.
Depois de tanto tempo, eis que Bolsonaro dá o primeiro passo. E justifica plenamente: "(...) em virtude da necessidade de modernização do atual regulamento em face das conquistas democráticas advindas da Carta Magna de 1988 e da valorização do efetivo da corporação como principal instrumento de uma atividade Policial Militar compatível com as necessidades da sociedade fluminense", discursa Bolsonaro. Na prática, isto quer dizer que num país com leis e Constituição cidadãs, a PM precisa tratar com mais humanidades os seus pares.
Bolsonaro bate na questão da possibilidade de se colocar policiais inativos sob conselhos de disciplina. O que, em outras palavras, deixa a vida de um aposentado nas mãos de um comandante-geral."Isso com a agravante de que tais medidas não se condicionam à prática de crime, podendo ser aplicadas por subjetivos critérios disciplinares administrativos!", reclama Bolsonaro.
Antes de apresentar o requerimento para a histórica comissão, Flávio Bolsonaro homenageou o novo comandante-geral da PM, mostrando que a paz agora é possível e duradoura:

DISCURSO:

Aproveito a oportunidade, já que estamos numa Sessão durante o recesso parlamentar, para dar boas-vindas ao novo Comandante-Geral da Polícia Militar, o Coronel PM Mário Sérgio Duarte, pessoa do mais alto gabarito, que dá agora outra cara à Polícia Militar e certamente vai rumar para a modernidade daquela importante instituição.

Estarei em reunião com o comando da corporação o mais rapidamente possível. Agora, sim, há o clima, há a intenção de olhar para os integrantes da corporação por parte do seu chefe, o comandante-geral. Vou poder levar várias e várias iniciativas que temos, por ocasião do nosso mandato parlamentar, para o comandante, Coronel Mário Sérgio, e tenho certeza que serão muito bem recebidas as ideias, como por exemplo a revisão do regulamento disciplinar, a questão do fim da prisão disciplinar, a estabilidade dos nossos praças, a questão das inclusões como estavam acontecendo. Tenho a certeza que a partir de agora haverá um critério, haverá um respeito à legislação, haverá um respeito à Constituição do Estado na hora de julgar um servidor público, que é o caso do militar.

Então, é só para dar esse recado. Tenham confiança, tenham convicção de que, a partir de agora, os integrantes da Polícia Militar vão passar a ter cidadania, vão passar a ter respeito, porque no comando da Corporação há uma pessoa preparada, que gosta da Polícia Militar e que quer, sem dúvida alguma, deixar a sua trajetória marcada positivamente. Para isso, é importante que tenhamos sempre esse diálogo, as portas abertas para que possamos ajudar esses integrantes da Polícia Militar a resgatar a vontade de trabalhar, a resgatar todo aquele sentimento, que, ao longo de sua carreira foi se perdendo por causa do péssimo tratamento dispensado por alguns Comandantes Gerais passados.

Então, as boas vindas ao Coronel Mário Sérgio.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Fundada a associação dos familiares das vítimas do Air France



Marteen van Sluys, irmão da jornalista Adriana (acima), e Nelson Marinho, pai de Nelsinho, são os líderes que resolveram partir para a briga em defesa dos que, como eles, perderam entes queridos no trágico acidente com o Airbus. Nesta quarta-feira 15 eles voam rumo a Paris para se encontrarem com a associação equivalente local. De lá, no sábado, seguem para a Alemanha, onde haverá encontro das três associações.
A união fez a força. A Air France que se prepare. Vem chumbo grosso aí.

Um golaço da PM

Nesta quarta-feira, dia 15, a PM do Rio marcou um daqueles gols que o Fantástico jamais passará na resenha de domingo - com certeza porque, a exemplo de muitos dos golaços de Pelé, não havia câmera perto registrando. O Proerd, programa de resistência às drogas da corporação, reuniu 720 crianças de nove escolas municipais (em 20 turmas de alunos) em uma festa na qual foi celebrada a harmonia e a cultura. Entre as crianças, Bruno, morador da Rocinha - onde foi a festa - que foi longe no programa Soletrando. Este ganhou um belo dicionário pelas conquistas na televisão.
Outros 20 livros clássicos - Monteiro Lobato, fábulas de Esopo, contos dos Irmãos Grimm, Mitos Gregos - foram distribuídos aos alunos que ganharam o posto de melhor redator de cada turma.
Todas as escolas reuniam alunos carentes, vulneráveis à sedução do poder do tráfico e das armas. Mas nesta manhã, o Proerd, além de já ter transmitido conhecimento sobre drogas, ainda deu aos alunos a vontade de competir saudavelmente. E assim, entenderem que competir é, acima de tudo, conviver.
A semente lançada no Proerd pela major Tânia Loos sempre dá flores e frutos. Mas acima de tudo, o trabalho dos praças da equipe atual deve ser reconhecido. Eventos como este reforçam a idéia de que a PM é sim, uma força de paz, e que só faz a guerra quando tudo o mais falhou.
Insatisfeita em só fazer guerra, a PM quer ajudar onde os outros estão falhando.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A dor e a missão




O tenente-coronel está em pé, na sala larga, de móveis simples e pequenos, com um banheiro no meio da parede em frente à mesa. Braços cruzados, sorri enquanto fala do batalhão, tanto do prédio, no alto do bairro das Laranjeiras, quanto do efetivo, formado por policiais preparados para qualquer confronto. Um capitão bate à porta. Os dois se prestam continência quase instintivamente. "Sou de infantaria", explicaria ele mais tarde para que os outros entendessem o militarismo no sangue.
O capitão se dirige a ele dizendo que a unidade da madrugada acabara de chegar (eram 14h) da missão em Bangu, onde armas foram apreendidas. "E cinco elementos foram mortos em combate". O rosto do tenente-coronel se modifica. Ele fica sério. Não triste, porque seria cinismo. Mas sério, porque se falou na morte. "Muito bem, capitão. Foi importante a missão ser cumprida sem que nenhum dos nossos fosse ferido", diz ele. O capitão sai, cumprimentando. E ele se vira para nós, ali, em pé:

- Tento combater essa história de "celebrar a morte" entre meus homens. Quero que eles sintam que é mais importante e vitorioso eles voltarem com vida do que necessariamente terem matado pessoas - diz ele, sério.

Como interlocutores, ninguém que ele estivesse tentando agradar ou conquistar, nenhuma ONG ou coisa do tipo. Apenas um jornalista e uma Madrinha.
O passeio continua até o refeitório, onde é servida a refeição. Proteína pura. Frango ensopado, feijão, muito feijão. Arroz. Quem faz a comida é Caveira. São refeições fortes. Mas é bem comida de soldado. O cara sai dali direto pro combate aos leões na arena, se vacilar. O tenente-coronel ri, percebendo que o frango ensopado desceu mal - quase como se em vez de ensopado estivesse com areia. Descemos até o saguão onde há fotos gigantescas de desfiles e operações policiais. Numa das fotos, de frente, um policial que era amigo da Madrinha. Morto em 2004, ele. O tenente-coronel se lembra dele como se vivo estivesse. Tem recordações dos treinamentos, da amizade, do convívio, das piadas. É quase um amor viril, um amor entre homens mas que nada tem, obviamente, de "contato físico". É amor de guerreiro.

O comandante nos leva então à saída. Ele está todo de preto, mas seu semblante não denota luto ou medo. Está com seus irmãos de céu e de terra.

Passei uns três anos sem vê-lo. Quer dizer, sem ver este tenente-coronel. Via, sim, de vez em quando, um oficial da Polícia Militar trabalhando. De lá para cá, assumiu um cargo mais ou menos burocrático, mais ou menos operacional, usando paletó e gravata. Mas na mesa - igualmente simples - estava lá, uma miniatura do Caveirão. A mesma que o coronel Jardim deu de presente ao relator da ONU, Philip Alston. Naqueles dias, planejou a maior operação da história do Complexo do Alemão, que mobilizou todas as revistas semanais e jornais da classe média. Capas sangrentas, mas a favor da entrada nas favelas, da matança, do sangue. O secretário de Segurança, aplaudido no Canecão.
Lição número 1: nem só de sangue vive o estômago da classe média. Assaltos, mortes, falta de segurança fizeram com que o triunfo no Alemão fosse esquecido. E até contestado. Meses depois, o PAC bloqueou a entrada da polícia. O sucesso da operação passou a ser definitivamente um fracasso, ainda que a polícia tenha tocado em locais jamais alcançados antes pelo Estado.
Logo ele virou presidente de alguma coisa - do instituto que divulgava as estatísticas de segurança. Mal assumiu e já era acusado de manipulador dos índices. Tomou medidas polêmicas, se expondo às críticas - justas - dos pesquisadores, como a de separar encontro de cadáver dos homicídios na hora de contabilizar.
Mas no fim, divulgou aumento de roubos, de furtos, de latrocínios, de homicídios, de roubos de carros, enfim, de tudo que atinge diretamente a sensação de segurança. Fez um trabalho isento. Chamou para a mesa pesquisadores, ativistas, jornalistas. E até o pai do menino João Roberto. Não chorou na frente dele, como aconteceu com todos na mesa. Mas conteve as lágrimas. Tal e qual um kamikaze da Opinião Pública, fazia questão de dizer que a morte do menino foi um erro muito grande, muito terrível, que a polícia precisava melhorar, mas....O "mas" não saía da garganta. Mas era algo do tipo "parem com o linchamento, foi um erro, foi incompetência, mas ninguém em sã consciência quer matar uma criança".
O terno e a gravata logo voltaram para a naftalina. Veio a farda azul de comando de toda a tropa. Entre uma frase e outra, era possível ver traços daquele tenente-coronel de três anos antes. Até que um cabo do Bope foi morto.
E eu finalmente revi aquele tenente-coronel todo de preto, com um semblante que não denotava luto ou medo, e sim a dor máxima, sincera, de perder um irmão de farda. A dor de perder o amigo, o comandado, o companheiro de armas. Uma dor lancinante, inexplicável. Naqueles minutos, cantando a canção do BOPE, ninguém percebeu, mas a Polícia Militar esteve sem comandante-geral. Esqueçam: ali não havia alguém de azul fazendo contas ou projetos de como melhorar a PM ou de como diminuir índices de segurança. Ali havia um ser humano em estado bruto. Alguém que queria estar um pouco junto do amigo que vai na viagem sem volta.
Um homem de preto tentando entender, se recusando a aceitar, esta que é esfaqueada eternamente no símbolo de seu uniforme. O tenente-coronel, todo de preto, estava de volta e chorava só porque as lágrimas dos vivos pertencem ao sangue dos heróis mortos.
Me lembrei porque os dois tenentes-coronéis, apesar de serem a mesma pessoa, são tão parecidos: eles apenas sabem da missão.

Bastidores no Twitter

A Twittosfera da Segurança Pública começou a nascer, e, como não poderia deixar de ser, repleta de denúncias - tal e qual começou a dita blogosfera. Hoje há nomes como @CherlockHolmes (com C mesmo), @cassuleta, @queronoticia e @bocadesabao que estão soltando informações de bastidores para todos os lados.
E para quem gosta de charadas, há o twitter do coronel Samuel Dionísio, ex-chefe do Estado-Maior da PM: @sddionizio. Mas prepare-se: como eu disse, ele fala por enigmas.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A missão árdua do Caveira 37 - ou "O cara do fax"

Ao assumir a PMERJ, o coronel Mário Sérgio de Brito Duarte já apontou para a necessidade de melhorar o funcionamento interno dos batalhões para que estes demandem por menos agentes administrativos. A idéia é trazer mais policiais às ruas. Mas pelo jeito, o oficial vai ter muito, mas muito trabalho.
No sábado, conversei demoradamente com um oficial da reserva que me contou a conversa que ele próprio teve com um tenente que trabalha em Comando de Policiamento de Área. O tenente se mostrava preocupado com a vindoura reforma e perguntava se não conhecia um "bom batalhão para ele ir trabalhar".
Aí o oficial me conta o que ouviu: "O cara era faxista do CPA. Faxista, ou seja, enviador de fax. Perguntei qual a escala dele".
- 12 por 48.
Ou seja, neste CPA haveria então CINCO oficiais encarregados de enviar fax. Tudo bem, documentos importantes, como ordens de policiamento.
A PM gasta cinco oficiais e ainda gasta papel de fax; melhor seria: operacionaliza-se o processo, ordens despachadas por email e um abraço. O batalhão que imprima em papel comum. O próprio oficial responsável pela ordem de policiamento enviaria as ordens, com cópia inclusive para superiores.


Mário Sérgio tem árduas tarefas pela frente. Uma delas é tirar a PM da idade da pedra.

sábado, 11 de julho de 2009

A banalidade do horror carioca

A morte chocante de um jovem estudante da FGV.

Alfredo Sirkis
Hoje não li nos jornais nenhuma notícia sobre o assassinato do jovem Diego Fonseca da Costa, estudante de administração da FGV e do nosso curso de formação de lideranças verdes da Fundação Hebert Daniel.

Era um garoto simpático, de 22 anos, esforçado, de uma modesta familia da zona oeste, que conseguira a custa de muito estudo e esforço transcender aquela realidade para uma promessa de vida melhor. Segundo meu filho era um grande tocador de cavaquinho.

Tudo isso se esvaiu num segundo louco em que algum bandido lhe deu três tiros e roubou seu tenis. Não me parece, no entanto, que tenha sido um simples latrocínio. Diego foi assassinado juntamente com um amigo, de 30 anos, Jocelino, que na verdade parece ter sido o alvo prioritário. Especula-se que tenha sido reconhecido por traficantes e como amigo de outros de um bando rival. E Diego foi de roldão. Há testemunhas que ouviram gritos de "não tenho nada a ver com isso!"

Ambos iam recolher outro garoto para irem a igreja. Diego era religioso e completamente distante do mundo abjeto que o matou.

Abri os jornais de hoje. Supunha que por ser um universitário da FGV merceria pelo menos um registro. Mas havia outros crimes mais espetaculares, uma menina morta num assalto de banco, era manchete. E Diego não foi sequer citado como mais uma baixa dessa guerra absurda que roi o fígado de nossa Cidade. Isso me irritou e mandei essa carta para O Globo:

A morte violenta tornou-se algo tão banalizado no Rio de Janeiro que a imprensa sequer noticiou o brutal assassinado de Diego Fonseca da Costa, estudante de administração da Fundação Getúlio Vargas, ontem de madrugada, em Santíssimo, junto com outro jovem. Faço-o aqui pelo registro. Ele era um dedicado e promissor bolsista da FGV e fazia também o nosso curso de formação de lideranças verrdes da Fundação Hebert Daniel. Estatisticamente esse crime tem 90% de chance de não ser desvendando e permanecer impune e, caso seus autores venham a ser identificados, presos e condenados, se tiverem um bom advogado, ainda poderão evitar a prisão até o julgamente em última instância e, finalmente presos, poderão sair em 3 ou 4 anos pelo mecanismo da "progressão de pena". Se forem menores, nem isso... A banalização da morte violenta e a desvalorização da vida humana, no Rio e no Brasil, são auto-explicáveis. Alfredo Sirkis, vereador do Partido Verde-RJ.

Fui com meu filho ao enterro de Diego no cemitério de Campo Grande. Pegamos engarrafamentos e chegamos um pouco tarde. Não me ocorreu nada de pertinente ou grandeloquente, nenhuma dessas coisas que os políticos gostam de dizer. Nada havia a dizer...

Apenas abracei seu pai e sua mãe e prometi ao seu professor de colégio que usaria de toda influência que possa ter na polícia para que esse crime seja desvendado e seu autores presos. Quase me envergonho de dizer uma coisa dessas mas é evidente que minha influência política fará com que o crime seja investigado com mais afinco do que se não a utilizasse para tanto, ainda mais este crime, em Santíssimo, que sequer mereceu uma notinha de pé de página. Diego terá pois esse póstumo "pistolão".

Não sei o que escrever mais, tamanho horror, tamanho desperdício, tamanha desumanidade. Só sei isso: seus assassinos precisam ser urgentemente descobertos, presos ou neutralizados, antes que matem de novo porque sua facilidade para tirar vidas inocentes e promissoras é total. Vão repetir o ato até serem impedidos de fazê-lo.

Isso é uma certeza e precisamos detê-los.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

EXTORSÃO DE R$ 10 MIL LEVA CABO PM DA "NOITE LEGAL" AO CONSELHO DE DISCIPLINA




Deve haver problemas no controle dessa Operação Noite Legal - diferentemente do que ocorre na Operação Lei Seca, onde os relatórios são diários e a dita "flexibilização" é zero. Na Lei Seca, infrator é punido e ponto final. Já na Noite Legal, a Corregedoria Geral Unificada descobriu que um cabo ofereceu liberar a boate Taj Lounge, na Barra da Tijuca, considerada intransitável no dia 30 de maio durante uma fiscalização. O empresário, de nome Fabrício, tentou contato com o delegado Marcos Castro, coordenador da operação, mas este obviamente estava muito ocupado e não pôde atender.
Coincidentemente, minutos depois, segundo o apurado pela CGU, um cidadão de nome Brito telefonou para Fabrício. O cidadão se identificou como subordinado do delegado Castro na Noite Legal e marcou encontro no estacionamento da casa de entretenimento Ilha dos Pescadores.
O querido leitor, por favor, não perca o fio da meada.
Lá na Ilha dos Pescadores, Brito disse a Fabricio que com R$ 10 mil seria possível liberar a boate para funcionamento. Chora daqui, chora dali, e os R$ 10 mil viraram R$ 8 mil.
A esta altura, os agentes da CGU e da Subsecretaria de Inteligência já tinnam Brito sob controle. No dia e local da entrega do dinheiro (dia seguinte, no terminal de ônibus, seguindo depois para a Barrinha, perto da delegacia), o cerco estava prontíssimo. Preso Brito, os agentes - como sempre, atentos - notaram que a poucos metros dali, coincidentemente, estava a Blazer do delegado Marcos Castro. O mesmo logo foi encontrado. E disse que estava com um amigo perto dali, em um restaurante.
Os agentes da Inteligência repararam que do restaurante poderia se vislumbrar toda a transação então fracassada. Mas isto era, claro, uma coincidência, bem como o fato de que havia uma ligação do delegado para o celular de Brito momentos antes da prisão.
Resultado disto é que, apesar de dinheiro nenhum ter sido localizado como prova, Brito dançou miudinho e agora vai a Conselho de Disciplina.
Já o delegado, deve ter se sentido péssimo por abrigar em sua equipe - sem nem ter idéia de nada - alguém envolvido com uma ocorrência destas. Antes não tivesse ido almoçar no mesmo local da transação, talvez a decepção fosse menor.

Sensação de (in) segurança e a missão das praças


Formatura de praças no CFAP (foto do blog de Roberta Trindade)

A newsletter (ex-blog) do ex-prefeito Cesar Maia divulgou nesta sexta-feira alguns dados de uma pesquisa encomendada pelo Partido Verde. Nesta, foram incluídas perguntas sobre Segurança Pública. O diagnóstico é bem desfavorável ao governo, o que apenas corrobora a necessidade de mudar o comando da PM a fim de dar um choque de credibilidade - e de diálogo com a sociedade - na política de segurança.
Uma pergunta, relata o prefeito, é bem objetiva: se o entrevistado se sente mais seguro. Para 60%, nada mudou em relação ao governo anterior. E para 25%, a coisa está pior. Apenas 12% se sentem mais seguros hoje.
Como não poderia deixar de ser, o carioca se sente menos seguro da Tijuca para cima. E um pouco no Centro.Esta fatia - Tijuca, Zona Norte, Centro - representa 60% da população da cidade. Só 10% dela se sentem mais seguros.
Cesar prossegue: a região de maior equilíbrio é Bangu: lá, 73% acham que está tudo igual. Ou seja, os extremos está bem/está mal acabam ficando em torno de 10% cada um. Em Jacarepaguá, 52% não veem diferença entre Rosinha e Cabral, e 22% é a porcentagem tanto de "está melhor" quanto de "está pior".
O resultado, no entanto, que mais importa, é o de Zona Sul/Barra, que é para onde qualquer governo procura dirigir suas políticas de Segurança Pública. É para onde a mídia está olhando, é onde o turista está (e, portanto, tem mesmo que ter mais segurança, já que infelizmente o turismo é um dos principais geradores de riqueza - não é bom que seja dos principais), é onde os fatos repercutem nos jornais, é onde está o consumidor do produto que anuncia nos jornais.
Na região Zona Sul/Barra, 69% acham que nada mudou. Resultado, a meu ver, que até poderia ser comemorado. Mostra uma percepção até otimista. Cerca de 18% se sentem mais inseguros e 12% mais seguros.
O problema é que 69% da Zona Sul achar que está tudo a mesma m(*) é um resultado muito ruim para um governo que já passou dos 60% de tempo de mandato.
Há cerca de um ano, alertei em outro blog que muitos praças - insatisfeitos e com razão - partiriam para a Operação Padrão disfarçada. "Quem não trabalha não erra, quem não erra não é punido", é a tônica. Na época, houve reações diversas. Hoje, se jogarmos a frase no Google - "Quem não trabalha..." - a veremos em vários blogs de Segurança Pública.
A sorte de todos é que o novo comandante-geral tem toda a percepção dos anseios dos praças. Do coronel Mário Sérgio jamais partiria uma frase grosseira como "quer ganhar bem vai para a Marinha" - até porque ele jamais citaria uma das FFAA por motivo torpe.
Uma das principais missões do coronel Mário Sérgio será esta: motivar o praça, fazê-lo acreditar que até o fim do ano virá um aumento, engajar os praças nos programas que possibilitam aumento de vencimentos, em suma, trazer o praça para a missão.
Acredito que o novo comandante-geral tem a credibilidade e a liderança que possibilitam o cumprimento pleno da missão.

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Será difícil não ler nada sobre os coronéis Edite Bonfadini e Solange Vieira, respectivamente novas comandantes do 13ºBPM (Praça Tiradentes) e 4ºBPM (São Cristóvão), no próximo domingo. A simpatia das duas está conquistando a mídia. Jornais e revistas preparam material.


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De um total de 24 horas (três turnos de oito) que deveriam ter sido dormidas de terça até esta sexta, o coronel Mário Sérgio dormiu no máximo 11. Reuniões e visitas a batalhões parecem não ter fim.
Mas ele sabia que a missão era pedreira.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Começam as mudanças

Nem bem a festa de posse acabou no Quartel-General e duas mudanças já são levadas a cabo em dois dos principais batalhões da Zona Sul. Em Copacabana, o coronel Rogério Seabra, ex-PM5 e Proerd, assume o comando no lugar do coronel Edson de Almeida. E no Leblon cai o coronel Lima Castro e assume o coronel Sérgio Nascimento, até então diretor-interino do BEP.
E se eu fosse o comandante do 2ºBPM (Botafogo) não faria inscrição em videolocadora no bairro para não ter que andar muito pra devolver filme.

Boa sorte ao novo 01


Mário Sérgio, em evento de oficiais da reserva do Exército


O novo comandante da PM assume o posto nesta quarta-feira ao meio-dia já com um certo rótulo de filosofês. Até mesmo no RJ TV foram exibidas imagens de seu blog, e a melhor cobertura de jornais - a de O DIA - mostrou bem esta faceta. Claro que O DIA destacou - com propriedade - a proximidade de "caveiras" do novo 01, o que é algo muito natural, dado seu passado: Mário Sérgio passou duas vezes pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), na segunda como comandante.
Temo apenas que o rótulo de "filósofo" confunda o grande público. O novo comandante lembra, de certa forma - como eu disse no post anterior - o coronel Hudson no mesmo posto: é muito mais coração do que qualquer outra qualidade. Tem, sim, grande racionalidade, competência, honestidade e impetuosidade. Mas é no coração que sua estrada vem sendo trilhada: grandes mágoas, grandes alegrias, grandes surpresas, algumas decepções.
Torço para que a sorte dele continue e o coração dele o mantenha no caminho certo - porque nem sempre, como todos sabemos, o coração decide o certo. Mário Sérgio vai enfrentar grandes adversários: os grupos internos da PMERJ que ele vai tentar apaziguar (como fez Hudson), a mídia que, cada vez mais voltada para o "serviço ao cidadão", vende jornal com cobranças estampadas; e um efetivo desproporcional, mal-preparado, mal-pago, resultado de 30 anos de sucateamento total da Polícia Militar.
E, pior: uma PM que é resultado de uma fusão inconveniente ocorrida há mais de 30 anos, que foi a dos treme-terra distritais e "xerifais" com os guanabarinos federalistas e, no caso de alguns, com o rei na barriga.
Não tenho a menor dúvida de que o coronel Mário Sérgio pode ser, sim, o nome a trazer paz à PM e conseguir colocá-la no rumo certo. Precisará de tenacidade, de pessoas de bem em volta, de muito aconselhamento, em uma quantidade tal que só aqueles desprovidos de arrogância - como é o caso - podem receber.

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Errei no palpite do Estado-Maior. Mas a outra nota, sobre Lei Seca, continua valendo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O comando da união e do consenso

A chegada do coronel Mário Sérgio ao posto mais alto da PM do Rio, pode-se dizer agora, era apenas questão de tempo. O oficial sempre foi o nome do subsecretário Roberto Sá e, por que não dizer, do próprio secretário. Este, porém, relutava muito em trocar o coronel Pitta, a quem é grato. Pitta assumiu a PM num momento de crise, fez trocas de comando (algumas entre as piores possíveis), apanhou como nunca da imprensa especializada, enfim, foi um escudo de silêncio entre a mídia e o delegado federal José Mariano Beltrame.
Os primeiros analistas já associaram, apressados, a troca de Pitta por Mário Sérgio como “resultado da denúncia feita pelo Ministério Público pedindo a prisão de 30 policiais”. Bobeira. Ou boa “desinformação” (no sentido técnico da palavra) vazada por assessor dos mais espertos. Querem dar um caráter de repentino a algo que vem sendo estudado desde o Palácio Guanabara.
A questão primordial é que o governador vinha reclamando que o item Segurança Pública vinha criando dificuldades para sua candidatura à reeleição ultrapassar os 28%. Para governante, o ideal é acumular gorduras no ano anterior para poder resistir bem à campanha nos meses imediatamente antes da eleição.
A PM é nada mais nada menos que o elemento essencial na prevenção de crimes, num cenário em que a taxa de resolução vinda da Polícia Civil ainda é baixa – por uma série de fatores que incluem, também, as péssimas condições de trabalho dos investigadores. Sem a PM, não há Estado, Governo ou ocupação urbana.
Se fosse repentina a decisão de levar Mário Sérgio ao comando-geral, podem acreditar que teria pesado muito mais a morte insana da professora na Praça Radial Sul em Botafogo (que num comandogeral razoável geraria NO MÍNIMO a exoneração do comando local) do que a denúncia do MP. As coisas chegaram em um ponto no qual Pitta e seu parceiro direto agiam mais com o fígado do que com a cabeça. Nenhum clamor da mídia – mesmo que fosse razoável – era atendido por um simples motivo: pirraça.
Quando o cidadão começa a ficar com a sensação de que o governo não cobra absolutamente NADA dos chefes intermediários, é claro que a rejeição aumenta.

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Quanto ao novo 01, a primeira e principal coisa que se deve registrar é que ele em nenhum momento desejou o cargo. Muitos desejaram por ele, que ele fosse alçado. Mas sua posição era bem definida em uma frase: “Se você me perguntar se eu estou preparado para esta missão, eu digo que estou, por um simples motivo: todo aquele que chega ao posto de coronel da PM tem que estar preparado. Mas se você me perguntar se eu desejo a missão, a resposta será diferente. Estou muito feliz no Instituto de Segurança Pública”, dizia Mário Sérgio, meses antes dessa mudança. E suas palavras eram sinceras. “O coronel Pitta é um homem honrado e não merece de jeito algum os ataques que lhe são feitos”, dizia, realmente contrariado, a este indiscreto inconfidente. Vazei estas duas frases apenas por causa de uma terceira, que ele me disse em seu gabinete: “Gustavo, se um dia eu for chamado para esta missão, não se preocupe, você será um dos primeiros a saber”. O mais engraçado: fui, certamente, um dos últimos!
O coronel Mário Sérgio deve fazer um comando de profundas mudanças e, a exemplo do coronel Hudson Miranda de Aguiar, um comando de consensos, de mediação de conflitos. Mário Sérgio é um oficial extremamente inteligente, ainda que seu coração – mais uma vez, como Hudson – volta e meia predomine. Não tenham dúvidas de que vão se surpreender quando ele chamar para o diálogo interlocutores que nada têm a ver com suas idéias. Aliás, assim ele fez no ISP: teve a seu lado o coronel Robson, de linha de pensamento diferente, o tempo todo. E chamou para conversar na mesma mesa vários interlocutores como a antropóloga Jaqueline Muniz, o coronel Carballo Blanco, o sociólogo Gláucio Soares e outros mais. Esta é uma marca de Mário Sérgio: prefere os possíveis opositores próximos, dialogando e tentando um consenso, do que distantes, conspirando.
Além deste caráter democrático, a gestão de Mário Sérgio deve ter como marca a integração com as Forças Armadas, da qual a PM vem se afastando. O oficial é reverente em relação aos militares federais e tem grande simpatia com sua aproximação. Não é defensor ardoroso do emprego das FFAA no combate ao crime, mas apóia a troca de idéias, informações e conhecimento. E respeita as fardas. Não duvido que ainda este ano o novo comandante-geral programe pelo menos uma ida ao Clube Militar.
A grande batalha, no entanto, será com a mídia. E midiaticamente, Mário Sérgio tem uma grande “desvantagem”: defende seus comandados. Reconhecendo erros, lamentando dolos, e ressaltando o caráter culposo – quando os há. Em conversas reservadas, concordávamos quanto a algo muito difícil de concordar: que não era justo o apedrejamento dos PMs (mal pagos, mal treinados, mal instruídos) que assassinaram de forma culposa o menino João Roberto. A morte foi culposa mas todos trataram como dolosa. Foi um erro gigantesco, horrendo, passivo de punição. Mas foi um erro. Não um gesto intencional. A família do menino tem todo o direito de dizer o que quiser. Sofrem como nunca ninguém sofrerá no caso. Mas cabe aos outros em torno ajustar a visão do ocorrido: as famílias dos PMs também sofrem e sofrerão por eles carregarem a cruz sangrenta desse erro colossal pelo resto da vida. Reiteremos: não sofrem mais que a família do João Roberto.
É para este posicionamento que o novo 01 da PM se volta: não quer a condenação prematura dos praças, o linchamento de policiais militares. Tem consciência plena de que este posicionamento volta e meia é perigoso e pode levar à condescendência. Mas não abre mão do direito de defesa dos policiais. É um dos que lamentam que aos oficiais caiba a prerrogativa de terem seus delitos ou desvios de conduta publicados em boletim reservado. “Ou publica tudo no ostensivo, ou tudo no reservado. Por que só os praças são expostos?”, disse certa vez.
Não há dúvidas: o comando do coronel Mário Sérgio será um comando de muitas reformas estruturais, mas também será o comando da união. Da Polícia Militar, internamente. E da PM com a sociedade organizada. Boa sorte ao novo 01.


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Minha aposta para Estado-Maior? Coronel Erir Ribeiro da Costa Filho.


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E querem saber? Quanto ao coronel Pitta, incomodou muito mais ao governo a reunião com os comandantes para falarem mal da Operação Lei Seca do que qualquer denúncia do MP.

domingo, 5 de julho de 2009

Caso Patrícia: a defesa ataca





Surgiu neste fim de semana um blog apócrifo no endereço http://cadepatriciainjustica.blogspot.com. A idéia é bem clara, até no nome da URL: defender os policiais acusados da morte da engenheira Patrícia Amieiro Franco em junho do ano passado.
Fiquei refletindo: se a Constituição Federal garante o direito à ampla defesa, por que um blog apresentaria inclusive documentos supostamente sigilosos, de uma investigação criminal, de forma anônima? Por que não reservar a apresentação destes documentos para o tribunal?
Depois de uma primeira parte em que o blog lança testemunhas dizendo que "não ouviram tiros" (dentre estas, moradores de rua do local), o http://cadepatriciainjustica.blogspot.com tenta, de forma indireta e subterfúgia, injuriar a vítima - e foi neste ponto que deixei de ver como razoável.
O Blog se baseia nos inquéritos e determina como 4h10 o horário de saída de Patrícia do Morro da Urca. Este horário não tem confirmação técnica - como, por exemplo, a multa tomada pelo carro em Ipanema às 5h20.

Na cronologia dos fatos a Patricia deixou o local do show às 4:10, descendo do pão de açúcar (útima imagem da vítima antes aos acontecimentos). A multa em ipanema aconteceu às 5:20. Teria levado ela em torno de 70 minutos para chegar da urca a ipanema, distância de aproximadamente 5,9 km se de ipanema à barra, que são 13,5 km, ela fez em 10 min, o que teria ocorrido neste meio tempo?


Só que Patricia está em Ipanema às 5h20, como o próprio blog afirma. Se passou mesmo pela Barra da Tijuca às 5h30, já invalidaria a suspeita descrita pelo blog abaixo:

Um fato que considero de extrema importância é um colete de moto táxi achado próximo ao seu carro com a descrição "MOTO TAXI RAMPA - via Apia n. 10" Esta rua é na Rocinha, o que estaria este colete fazendo no carro de patrícia, porque a polícia em nenhum momento, apesar de ter apreendido o colete, cogitou a possibilidade de seguir esta linha de investigação?


Quão próximo estaria o colete? Será que a distância invalidaria esta linha de investigação?

O Blog tem algumas questões pertinentes - como lembrar que não há imagem de câmera de segurança para saber se Patricia estava sozinha no carro. No mínimo, é uma demonstração de que o sistema de câmeras não funciona. É possível notar que:

1- O blog é feito por pessoas com acesso a dados protegidos, como a conta reversa do celular de Patrícia

2- O blog não é feito por gente que tenha familiaridade com recursos tecnológicos, já que os documentos são postados em tamanho pequeno e não possibilitam leitura.


O blog deve causar grande repercussão. Só temo a pressa - afinal, não houve nenhuma pressa para se chegar aos policiais. O caso tem um ano e passou por duas delegacias distritais e duas especializadas. Sendo que, no caso da DAS, ainda tem um agravante: ao longo dos anos, a Divisão Anti-Sequestro sempre alertou que só entrava em um caso a partir da caracterização do delito, ou seja, só quando havia o pedido de resgate. O caso de Patricia foi o primeiro a ser aceito pela DAS. Que, digamos, deu boa empurrada com a barriga até a Homicídios chegar às conclusões de agora.

Mas quem passou o caso para DAS não deve saber disso, pelo jeito.

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Mais uma morte estúpida em Botafogo, assaltantes matam uma mulher, uma professora. O blog http://bairrodebotafogo.blogspot.com/ dá todos os detalhes. É mais um corpo. E novamente, nada vai acontecer, ninguém vai ser cobrado, vai ficar tudo a mesma coisa.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Palavras trazidas pela Maré




A cientista social Sílvia Ramos está na agenda de qualquer jornalista que se preze hoje no Rio de Janeiro. Quando se quer ouvir uma opinião mais pensada sobre a área de Segurança Pública, sem paixonites de esquerda ou arroubos da direita, recorre-se à ela, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Candido Mendes. Neste cargo, desenvolve há anos um trabalho fundamental, e de formiguinha: a aproximação entre polícia e cidadãos. Uma utopia que é também trabalhada por pessoas que convivem com os batalhões em cada bairro. Uma utopia que é deste blog.
Sílvia elabora no momento, com outros pesquisadores, o mais completo trabalho sobre a Blogosfera da Segurança Pública do Brasil. É dela o mérito de começarem a aparecer mais na imprensa tradicional blogs como os do Major Wanderby e o Praças da PMERJ, só para citar dois exemplos.
Silvia enviou bela carta aos amigos, que reproduzo abaixo.


Queridos amigos,
Escrevo para fazer um relato de um dia fora do comum. Acabo de chegar da Conferência Livre da Maré, a primeira conferência livre de um bairro do Rio de Janeiro no contexto da CONSEG.
Para minha surpresa, verifiquei que estavam presentes nada menos que 185 pessoas formalmente inscritas, entre moradores da Maré, lideranças comunitárias, ativistas de direitos humanos, pesquisadores, além do comandante do 22o. BPM, cel Seixas, a capitão Pricilla que comanda o policiamento comunitário do Santa Marta e o cel. Seabra, que comanda as comunicações da PMERJ. Além desses, muitos amigos da REDES e das outras entidades que convocaram a conferência livre passaram por lá o dia todo. Inclusive um grupo de franceses vindos do município da periferia de Paris, Virth-Sur-Seine, que anotavam cada frase entre boquiabertos e incrédulos.
Tudo ocorreu no Centro de Artes da Maré, o belo e grandioso espaço que Lia Rodrigues e seu grupo de dança e arte ergueram dos escombros de uma velho galpão, numa das entradas da Nova Holanda, no Complexo da Maré.
As fortes emoções começaram pela manhã bem cedo, quando traficantes reagiram à presença de veículos e do forte efetivo da PM com tiros dirigidos ao local onde se realizaria a conferência. Tudo se acalmou rapidamente, quando os traficantes perceberam que não se tratava de uma invasão, mas de um debate. A tensão, contudo, perdurou por um tempo até a abertura.
Eliana Silva, da REDES, abriu os trabalhos com uma explicação da importância histórica da participação da Maré na Conferência Nacional de Segurança Pública: "a Maré vai levar suas propostas, nós queremos ter voz em Brasília". Por isso estamos cumprindo os procedimentos de uma conferência livre, como explicou Raquel Willadino, do Observatório de Favelas. Miriam Guindani e Julita Lemgruber fizeram ótimas exposições sobre o sistema de justiça criminal, o controle externo da polícia e sublinharam a importância do encontro. O tom da abertura e a ênfase no diálogo deram o mote do dia: "todos que estão aqui são bem vindos. Não queremos preconceitos, queremos o diálogo e vamos debater tranquilamente nossas opiniões sobre segurança pública, que é um tema que nos afeta diretamente", disse Eliana.
Ao longo do dia o que se viu foi quase um milagre: grupos de 30 a 40 pessoas discutiam organizadissimamente pontos dos eixos temáticos e anotavam suas concliusões em grandes cartolinas. Os grupos tinham a cara da diversidade total, gente de favela, do asfalto, da cultura, da militância, da polícia, da academia.
O almoço, preparado pela famosa "Galega", da Maré, arrasou, com cinco opções, que iam da carne de sol ao estrogonofe, vários tipos de feijão, cuscus, farofa e fartura nordestina total.
Bira, o fotógrafo da Escola Popular de Fotografia da Maré, me mostrava em sua câmera uma das centenas de fotos que bateu ao longo do dia: o cel. Seabra inclinado se servindo no balcão da Galega ao lado do Robson, da Rocinha/Viva Rio e de outras liderança da Maré. Bira me disse: "vem ver: democracia é isso".
Na mesa de almoço em que estava o cel Seabra se sentaram Marcia Jacinto, que teve seu filho assassinado em 2002 e que investigou o crime por contra própria e provou que ele fora assassinado por policiais, que hoje estão presos (Marcia ganhou o prêmio Faz a Diferença do Jornal O Globo de 2009), Patrícia Oliveira, irmã do Wagner, da Candelária, da Rede Movimento Contra a Violência nas Comunidades e outras ativistas que eu não conhecia. Seabra, Seixas e Pricilla, os policiais, tinham participado do mesmo grupo de debates que Márcia, Patrícia e outras 30 pessoas antes do almoço e a despeito das diferenças, o que se viu naquele e nos outros grupos ali na Maré é que o diálogo - milagre - é possível.
O mais incrível do Rio é que essas coisas, essas cenas inesperadas, essas viradas de página se dêem exatamente na Maré, ali onde t-o-d-a-s as dificuldades, barreiras, tabus, preconceitos teriam tudo para ser maiores do que são em qualquer lugar. Ali onde é mais difícil reunir pessoas para "discutir segurança publica" do que em Copacabana, Barra ou Botafogo, com suas mil opções de locais seguros e tranquilos. Ali na Maré, onde a Conferência Livre começa com tiros e acaba com diálogos imprevisíveis e inusitados... isso também é o Rio. E isso é histórico.
Graças à coragem da Eliana e do monte de gente corajosa, criativa e ousada que ela lidera hoje no Rio de Janeiro.
Um abraço,
Silvia




É uma lição para quem mora na Zona Sul e não se mobiliza pela segurança: a Maré se reuniu, discutiu e se aproximou da PMERJ, pelo menos naquela tarde. Na Zona Sul, há síndicos que não deixam sequer o policial da viatura baseada em frente usar o banheiro da garagem.

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Nota curiosa do belo texto da Silvia: o coronel Seabra voltou a ser o chefe da Comunicação Social? Se sim, boa notícia. Se não, algo está errado, já que não fomos informados via boletim ostensivo da ausência do titular. O que será que houve? Será que o titular estava ausente do país?
Seja lá o que for, vai ficar por isso mesmo. Como sempre, aliás.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Mulher acusada de matar o marido a facadas se entrega à Justiça segunda-feira

A empresária Alessandra Ramalho Nunes D'Ávila se apresenta às 14h desta segunda-feira, 6 de julho, ao 3º Tribunal do Júri, no Fórum do Rio de Janeiro. Alessandra segue apenas a orientação de seu advogado, Mario de Oliveira Filho. Mas é fato que a moça já está há pelo menos uma semana no Rio de Janeiro. Por que não foi presa, bom, é um mistério.
Para quem ainda não lembra quem é Alessandra: trata-se da acusada de matar o próprio marido a facadas na noite do dia 12 para dia 13 de julho. Ela e os advogados alegarão legítima defesa. A polícia civil busca Alessandra sem sucesso há três semanas.
A Justiça já havia determinado prazo até o dia 8 para que Alessandra se apresentasse.