terça-feira, 14 de julho de 2009

A dor e a missão




O tenente-coronel está em pé, na sala larga, de móveis simples e pequenos, com um banheiro no meio da parede em frente à mesa. Braços cruzados, sorri enquanto fala do batalhão, tanto do prédio, no alto do bairro das Laranjeiras, quanto do efetivo, formado por policiais preparados para qualquer confronto. Um capitão bate à porta. Os dois se prestam continência quase instintivamente. "Sou de infantaria", explicaria ele mais tarde para que os outros entendessem o militarismo no sangue.
O capitão se dirige a ele dizendo que a unidade da madrugada acabara de chegar (eram 14h) da missão em Bangu, onde armas foram apreendidas. "E cinco elementos foram mortos em combate". O rosto do tenente-coronel se modifica. Ele fica sério. Não triste, porque seria cinismo. Mas sério, porque se falou na morte. "Muito bem, capitão. Foi importante a missão ser cumprida sem que nenhum dos nossos fosse ferido", diz ele. O capitão sai, cumprimentando. E ele se vira para nós, ali, em pé:

- Tento combater essa história de "celebrar a morte" entre meus homens. Quero que eles sintam que é mais importante e vitorioso eles voltarem com vida do que necessariamente terem matado pessoas - diz ele, sério.

Como interlocutores, ninguém que ele estivesse tentando agradar ou conquistar, nenhuma ONG ou coisa do tipo. Apenas um jornalista e uma Madrinha.
O passeio continua até o refeitório, onde é servida a refeição. Proteína pura. Frango ensopado, feijão, muito feijão. Arroz. Quem faz a comida é Caveira. São refeições fortes. Mas é bem comida de soldado. O cara sai dali direto pro combate aos leões na arena, se vacilar. O tenente-coronel ri, percebendo que o frango ensopado desceu mal - quase como se em vez de ensopado estivesse com areia. Descemos até o saguão onde há fotos gigantescas de desfiles e operações policiais. Numa das fotos, de frente, um policial que era amigo da Madrinha. Morto em 2004, ele. O tenente-coronel se lembra dele como se vivo estivesse. Tem recordações dos treinamentos, da amizade, do convívio, das piadas. É quase um amor viril, um amor entre homens mas que nada tem, obviamente, de "contato físico". É amor de guerreiro.

O comandante nos leva então à saída. Ele está todo de preto, mas seu semblante não denota luto ou medo. Está com seus irmãos de céu e de terra.

Passei uns três anos sem vê-lo. Quer dizer, sem ver este tenente-coronel. Via, sim, de vez em quando, um oficial da Polícia Militar trabalhando. De lá para cá, assumiu um cargo mais ou menos burocrático, mais ou menos operacional, usando paletó e gravata. Mas na mesa - igualmente simples - estava lá, uma miniatura do Caveirão. A mesma que o coronel Jardim deu de presente ao relator da ONU, Philip Alston. Naqueles dias, planejou a maior operação da história do Complexo do Alemão, que mobilizou todas as revistas semanais e jornais da classe média. Capas sangrentas, mas a favor da entrada nas favelas, da matança, do sangue. O secretário de Segurança, aplaudido no Canecão.
Lição número 1: nem só de sangue vive o estômago da classe média. Assaltos, mortes, falta de segurança fizeram com que o triunfo no Alemão fosse esquecido. E até contestado. Meses depois, o PAC bloqueou a entrada da polícia. O sucesso da operação passou a ser definitivamente um fracasso, ainda que a polícia tenha tocado em locais jamais alcançados antes pelo Estado.
Logo ele virou presidente de alguma coisa - do instituto que divulgava as estatísticas de segurança. Mal assumiu e já era acusado de manipulador dos índices. Tomou medidas polêmicas, se expondo às críticas - justas - dos pesquisadores, como a de separar encontro de cadáver dos homicídios na hora de contabilizar.
Mas no fim, divulgou aumento de roubos, de furtos, de latrocínios, de homicídios, de roubos de carros, enfim, de tudo que atinge diretamente a sensação de segurança. Fez um trabalho isento. Chamou para a mesa pesquisadores, ativistas, jornalistas. E até o pai do menino João Roberto. Não chorou na frente dele, como aconteceu com todos na mesa. Mas conteve as lágrimas. Tal e qual um kamikaze da Opinião Pública, fazia questão de dizer que a morte do menino foi um erro muito grande, muito terrível, que a polícia precisava melhorar, mas....O "mas" não saía da garganta. Mas era algo do tipo "parem com o linchamento, foi um erro, foi incompetência, mas ninguém em sã consciência quer matar uma criança".
O terno e a gravata logo voltaram para a naftalina. Veio a farda azul de comando de toda a tropa. Entre uma frase e outra, era possível ver traços daquele tenente-coronel de três anos antes. Até que um cabo do Bope foi morto.
E eu finalmente revi aquele tenente-coronel todo de preto, com um semblante que não denotava luto ou medo, e sim a dor máxima, sincera, de perder um irmão de farda. A dor de perder o amigo, o comandado, o companheiro de armas. Uma dor lancinante, inexplicável. Naqueles minutos, cantando a canção do BOPE, ninguém percebeu, mas a Polícia Militar esteve sem comandante-geral. Esqueçam: ali não havia alguém de azul fazendo contas ou projetos de como melhorar a PM ou de como diminuir índices de segurança. Ali havia um ser humano em estado bruto. Alguém que queria estar um pouco junto do amigo que vai na viagem sem volta.
Um homem de preto tentando entender, se recusando a aceitar, esta que é esfaqueada eternamente no símbolo de seu uniforme. O tenente-coronel, todo de preto, estava de volta e chorava só porque as lágrimas dos vivos pertencem ao sangue dos heróis mortos.
Me lembrei porque os dois tenentes-coronéis, apesar de serem a mesma pessoa, são tão parecidos: eles apenas sabem da missão.

4 comentários:

Anônimo disse...

Querido amigo

Vc é um iluminado! descreveu incrivelmente as faces de um Comandante, como já disse antes, humanizado, imparcial e que sabe se posicionar.
difícil não ir às lágrimas ao se perder um irmão de farda... e, sinceramente, sei que o Comandante tb se manifestará quanto à mortificação da identidade policial que hj experimentamos na Corporação.Quero voltar a acreditar que a PMERJ tratará seu capital humano com dignidade, que os excessos e assédio moral no local de trabalho serão severamente punidos ...
(rs) pq o mínimo de dignidade não se negocia (autor desconhecido?)
bjs
Amiga

Emir Larangeira disse...

Caro Gustavo

O seu texto, lindo, digno de um artista das letras que ultrapassa os limites do mero reprodutor de notícias, poderia ser resumido numa pequena frase que encerra o que os gerreiros do BOPE são e o que muitos "barrigas azuis" igualmente são: homens de FORÇA e HONRA!
A nomeação do Cel PM Mário Sérgio ultrapassa o cargo. Ele nasceu líder e nos dá orgulho, um orgulho perdido e agora recuperado. Sou um velho PM de pijama faz vinte anos. Não preciso bajular os meninos de hoje, mas vibro como um menino quando vejo a PM renascer das cinzas por crer na liderança de um exemplo de PM desde que iniciou a carreira, na juventude do tenente, pelas terras gonçalenses e muitas outras.
Sou um entusiasta do BOPE. No anos de 2000 publiquei um romance denominado "Operação Arabesco", e lá está o BOPE em destaque. No momento de definir o BOPE, o máximo que consegui foi dizer: "O BOPE é o BOPE!" Não precisa mais, e continuo dizendo que "O BOPE é o BOPE!". E agora temos o BOPE no comando, e venceremos independentemente de política e de políticos, de dirigentes e de governantes! Pois o BOPE é missão, e toda a PMERJ será missão acima de tudo. Conheço a tropa. Mesmo sofrida, ela é valente como sempre foram as gerações passadas.
Obrigado pelo artigo!
Você, meu amigo, consegue penetrar em nossos corações como um autêntico PM, e nem por isso deixa de criticar o errado. Precisamos de jornalistas como você, que nos critique sabendo que possuímos coração e almejamos servir à sociedade até com o sacrifício da própria vida, pois assim juramos perante a Bandeira Nacional.
Abraços.

Nina disse...

Texto lindo !!!
Profundo ...
Comentar mais o que ?!
Você realmente é iluminado na arte
de escrever.
Um grande abraço

Tania disse...

Sem comentários ... não precisa ...
Suas palavras "tocam" a alma ...
Um forte abraço!